A Ressurreição Acidental de Jesus das Camisetas
Por Edmilson Vieira Dimelo
Naquela manhã de Páscoa, acordei como um Cristo desmemoriado: de barriga para cima, sob um sol que mais parecia uma frigideira divina. "Caramba, se isso é a ressurreição, preferia ter ficado na tumba", pensei, tentando lembrar se era eu mesmo dentro daquele corpo bronzeado e grudento de areia. Aos meus pés, um quartilho de vodka vazio, uma mochila com 280 camisetas (sim, *duzentas e oitenta* – alguém achou que eu era um camelô da Via Dolorosa?) e uma carteira cheia de dinheiro, mas vazia de identidade.
A paisagem? Uma praia deserta, só areia branca, mar e um silêncio que até Deus parecia ter dado folga. "Santa Catarina? Bahia? *Marte*?" Decidi que a resposta estava no mar. E, num surto de inspiração aquática, mergulhei nu nas ondas, certo de que o batismo salvaria minha alma (ou pelo menos minha memória).
Ao sair, avistei um pescador de sandália da humildade, barba de profeta e olhar de quem já viu muitos "Jesuses" aparecerem por ali.
— Onde estou? – perguntei, pingando água e dignidade.
— Matinhos, Paraná – ele respondeu, espiando a mochila. "Quer comprar uma camiseta?", quase ofereci, mas me contive.
*Matinhos*. 400 km de Itajaí, onde, segundo flashes de memória, eu havia comido uns "doces" que claramente não eram de padoca. Como cheguei ali? Quem me arrastou? Será que usei a mochila de asa-delta? Mistério.
Decidi que, se era Jesus, faria como ele: vagaria pelo mundo. Peguei carona pra Curitiba, onde encontrei Nique, meu discípulo favorito de rock, putas e "drogues". Juntos, fomos ao Largo da Ordem, onde cuspimos filosofia em copos de cerveja e vendemos camisetas na Praça Rui Barbosa. "Leva uma, irmão! Abençoa seu guarda-roupa!" Grana fácil – até as formigas do local queriam negociar.
— Vocês querem o quê? *Açúcar*? – berrei, debatendo com elas. "Vão catar migalhas de outro messias!"
Cansado de salvar o mundo (e de discutir com insetos), voltei pra casa da mãe em Passo City. Ela me recebeu com pão de queijo e um "Filho, larga essa vida de Cristo hippie". Arrumei um emprego, uma namorada "meio normal" e, hoje, quando lembro da época em que confundiram um maltrapilho com o Salvador, rio. Afinal, a vida é frágil, mas 280 camisetas são um fardo eterno.
Amém. Ou não.
(Baseado em fatos surreais de 1999. Ou nem tanto.)

Comentários
Postar um comentário