A Descida da Graciosa: Uma Aventura sobre Trilhos e Sementes



Por Edmilson Vieira Dimelo

Era uma manhã nublada de fevereiro quando Edmilson, um sujeito de espírito aventureiro e bolso vazio, recebeu um convite que prometia ser épico: descer a Serra da Graciosa, de Curitiba até Morretes, sem pagar os R$ 160 do confortável vagão turístico. A proposta era simples, mas arriscada: em vez de viajar como um turista, ele embarcaria clandestinamente no trem cargueiro, escondido entre sacas de grãos. "Afinal", pensou ele, "quem precisa de conforto quando se pode viajar como uma semente de soja?"

Às 8 da manhã, Edmilson e seus comparsas já estavam posicionados nos becos da favela Capanema, vestidos como personagens de um filme de ação amador: mochilas pequenas, tênis surrados, jeans e camisas de manga longa (porque até os aventureiros precisam de um pouco de estilo). Fumavam nervosamente, esperando o momento exato para pular no trem. Quando ele apareceu, rugindo como um dragão de aço, eles correram como se estivessem em uma cena de Missão Impossível. Edmilson, de frente para um "milico" (um soldado que parecia tão perdido quanto ele), deu um sorriso torto e pensou: "É agora ou nunca. Vamos fazer história — ou pelo menos uma boa história de bar."


O trem começou a descer a serra, e Edmilson logo percebeu que a aventura seria mais intensa do que imaginava. O comboio tinha duas locomotivas — uma na frente e outra atrás, como se estivessem em um cabo de guerra com 50 vagões no meio. A velocidade era tão lenta que dava tempo de contar cada estralo dos trilhos, cada curva sinuosa que parecia querer lançá-los no abismo. À esquerda, um precipício sem fim; à direita, um morro que não ajudava em nada. E no meio, Edmilson, pendurado como um pendrive em um computador antigo, rezando em todas as línguas que conhecia — e algumas que inventou na hora.


"Pai Nosso em latim, Ave Maria em hebraico, e se precisar, eu faço um mantra em esperanto!", pensou ele, enquanto a garoa molhava sua camisa e o medo molhava suas calças. O trem parou por 20 minutos em uma curva, e Edmilson jurou que, se sobrevivesse, nunca mais reclamaria da classe econômica dos aviões. "Pelo menos lá tem ar-condicionado e biscoitinho!", lamentou.


Quando o trem finalmente começou a se mover novamente, Edmilson sentiu um alívio momentâneo — até perceber que estavam subindo. "Subindo? Pra onde? De volta pra Curitiba?", pensou, enquanto o coração batia mais rápido que os estralos dos trilhos. Mas, felizmente, após alguns minutos de suspense, o trem voltou a descer, e Edmilson pôde respirar fundo — ou pelo menos tentar, já que o cheiro de peixe de Paranaguá já começava a invadir suas narinas.


Ao chegar ao destino, Edmilson e seus companheiros de viagem saltaram do trem como heróis anônimos de um filme de ação low-budget. Cobertos de poeira, suor e um pouco de trauma, eles se fundiram com a paisagem urbana de Paranaguá, onde estaleiros e contêineres eram o cenário perfeito para uma fuga discreta. Embarcaram em um ferryboat rumo à Ilha do Mel — claro, sem pagar a passagem —, e Edmilson prometeu a si mesmo que nunca mais repetiria a aventura.


Na Ilha do Mel, Edmilson finalmente se deu conta de que estava inteiro. "Não me caguei de medo porque não tinha muito dentro das tripas", confessou, enquanto Melico, um dos comparsas, já estava em casa, com uma garrafa de cachaça na mão e um sorriso de quem sabia que a polícia estava longe. "Relaxa, irmão, aqui não tem polícia num raio de quilômetros", disse Melico, acendendo mais uma "erva" para celebrar a sobrevivência.

E assim, a lenda do trem da Graciosa foi eternizada, não como uma viagem turística, mas como uma epopeia de sobrevivência, onde o único luxo era chegar ao destino inteiro — e sem ser preso. Edmilson jurou que nunca mais repetiria a aventura, mas já planejava sua próxima façanha: "Próxima vez, vou de primeira classe, com direito a champanhe e massagem nos pés!", declarou, enquanto saboreava um peixe robalo com couve, preparando-se para contar essa história — e muitas outras — em noites regadas a cachaça e risadas.

E assim, de grão em grão, a aventura se aventurava.

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