Festa dos Quinze e a Lambreta Fugitiva
Por Edmilson Vieira Dimelo
Há trinta anos, quando ainda achava que "estabilidade" era uma palavra inventada por inimigos da diversão, fui contratado para animar os quinze anos de Elly, uma moça que decidira "virar adulta" após descobrir que pedras filosofais não pagavam contas. Mal sabia eu que aquela festa entraria para a história como o dia em que uma Lambreta, treze cogumelos e uma meia-calça usada quase destruíram minha reputação (e meus dentes).
Tudo começou quando roubei a Lambreta do meu pai. Não era uma moto, era um experimento soviético para testar a resistência humana. Para ligá-la, eram necessários: três socos no tanque, duas pedaladas e um chute na alavanca que deixava a canela roxa por tempo indeterminado. Enquanto fugia do Bar do Bicudo, onde meu pai planejava me enterrar vivo por gastar seu salário em *pinga*, a moto decidiu, por conta própria, rumar para o Seminário dos Padres. Coincidência? Até hoje acho que ela tinha um caso com a Madre Superiora.
Atrás do Instituto Menino Deus, encontrei o Élio, baterista da banda *Os Desafinados do Apocalipse*, tirando leite de uma zebu. Perguntei se ele estava ali para um *workshop* de percussão bovina, mas ele só resmungou: "É pro café da tarde dos padres." Foi quando vi, no meio do *fertilizante natural* da vaca, treze cogumelos gigantes. O maior parecia um guarda-chuva de duende, e os menores tinham cara de quem prometia "viagens sem passagem de volta". Enchi os bolsos do colete e saí dali antes que os seminaristas percebessem que eu não era o entregador de queijo minas.
Na casa da festa, o caos era tão grande que até o ponche estava suando. A irmã da Elly, Eryka (dez anos, mente de *hacker* e coração de *serial killer*), entregou-me uma meia-calça usada, dizendo: "Coloca no ponche, dá um *gostinho de cochas*." Não questionei. Naquela altura, já achava normal. Misturei vinho do Bar do Wilson, suco de limão, restos de laranja e a meia, criando uma bebida que poderia curar o câncer ou causar um.
Enquanto a garoa virava tempestade, liguei o som. O DJ, um tal de *Val*, havia abandonado a vitrola após perder a agulha. Para consertar, usei um espinho de laranjeira e um clipe que achei no chão — estilo McGyver, só que mais bêbado. A música voltou, mas o vinil era de um *rock progressivo* tão psicodélico que até as paredes pareciam derreter. Foi quando notei que os cogumelos no meu bolso estavam… *vaporizando*.
Respirei fundo (erro) e, em segundos, vi a Lambreta ganhar vida, falando comigo em latim. Decidi fugir antes que os padres me caçassem, mas a moto só pegou no tranco após descer um morro, comigo gritando: "VAI, SUA BISAVÓ DE UMA FERRARI!". Na neblina, troquei marchas com mãos tão geladas que pareciam luvas de freezer. A primeira marcha rangia como um demônio engasgado; a embreagem estava mais solta que os padrões morais do Élio.
Quando voltei à festa, encontrei o auge do surreal: convidados dançavam valsa com padres (que rezavam em esperanto), os cogumelos viraram centro de uma "instalação artística" e, no meio da sala, um sujeito fazia *strip-tease* ao som de *Astaroth*, a nova banda que surgira ali mesmo — mistura de Black Sabbath com Música Caipira Raiz. Descobri depois que o ponche tinha sido reforçado com "um toque especial" do Élio (suspeito que eram os cogumelos menores).
Para evitar a acusação de envenenamento, bebi o resto do ponche. Tudo. Resultado? Fiquei com os dentes amarelos (até hoje) e uma ressaca que me fez jurar lealdade à água mineral. A festa terminou com a polícia chegando para investigar "atividades suspeitas" e a Elly decidindo que ser adulta era superestimado — voltou a colecionar pedras, mas agora com licença ambiental.
**Epílogo**:
A Lambreta acabou em um ferro-velho, os cogumelos viraram lenda urbana, e a *Astaroth* tocou por dois meses em bares de estrada, até serem expulsos por "perturbar o gado". Quanto a mim, aprendi que:
1) Nunca confie em motos que falam latim.
2) Meias usadas não são ingredientes.
3) Cogumelos de estrume são como políticos: prometem maravilhas, mas só deixam tudo pior.
E foi assim que os quinze anos da Elly viraram o *Woodstock* da roça. Ou, como diz a Eryka hoje: "Aquele dia foi tipo um *TikTok*… só que sem celular. E com mais vômito."

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