Margarida, a Camionete que Ninguém Queria Roubar
Por Edmilson Vieira Dimelo
Era uma vez, num lugar onde o asfalto era mais buraco do que estrada, uma camionete chamada Margarida. Margarida não era uma camionete qualquer. Era uma Chevrollet V8, mas não daquelas que fazem os homens suspirarem de admiração. Não, Margarida era do tipo que fazia os mecânicos chorarem de desespero. Um cimboro de carroceria de madeira, com um motor que bebia gasolina como se fosse água no deserto. E olha que água no deserto já é rara, mas gasolina naquela época era como encontrar um unicórnio numa loja de conveniência.
Margarida era a companheira fiel de um trabalhador afortunado — ou talvez desafiado pela sorte — que podia levá-la para casa todas as noites. Mas "afortunado" é uma palavra forte, porque Margarida tinha seus vícios. Além de consumir gasolina como se estivesse em uma competição de bebidas, ela tinha um assento que mais parecia uma cama de tortura medieval. Inclinado, duro, com um buraco no meio que desafiava as leis da anatomia humana. Dizem que uma vez um passageiro saiu de lá com uma costela amassada, mas ele jurou que valeu a pena pela experiência "única".
E o cheiro? Ah, o cheiro! Margarida exalava um perfume constante de gasolina misturado com madeira mofada e suor de décadas. Era um aroma que poderia ser classificado como "Eau de Desespero". E acelerar? Nem pensar! A gasolina estava sempre "pela hora da morte", como dizia o dono. Então, Margarida andava devagar, quase como se estivesse contemplando a vida enquanto arrastava suas rodas cansadas.
Roubar Margarida? Hah! Isso era uma piada pronta. Qualquer ladrão que tentasse levar a velha senhora desistiria antes mesmo de sair do lugar. A direção folgada fazia com que a camionete ziguezagueasse como um bêbado numa corda bamba. E o câmbio manual? A alavanca parecia ter sido feita para mãos de gigantes, e cada troca de marcha era um teste de força e paciência. Sem falar nas portas, que rangiam como se estivessem contando segredos de um passado sombrio.
Mas Margarida tinha seu charme. Ela era uma testemunha ocular da vida. Já transportou mudanças, presenciou despedidas emocionantes, carregou amantes clandestinos e até mesmo ajudou em um ou outro "rodouro metálico" no Morro do Sétimo Céu. Sim, Margarida era a camionete que unia todas as classes sociais. De filhos de trabalhadores a playboys descolados, todos já haviam passado por seu banco desconfortável.
E os anos 60? Ah, os anos 60! Margarida era a charrete que perdeu o condutor, mas continuou rodando. Era a época das promessas de amor, das melodias melancólicas e dos lança-perfumes que deixavam todo mundo tonto. Dizem que uma vez um filho de deputado morreu com o travesseiro encharcado de lança-perfume, mas isso é outra história. Margarida sobreviveu a tudo isso, inclusive a um helicóptero que fez um pouso forçado ao lado dela durante o Carnaval. "Viva o Carnaval!", gritavam os foliões, enquanto Margarida roncava no canto, como se dissesse: "Eu já vi coisas piores".
E assim seguia a vida de Margarida, a camionete que ninguém queria roubar, mas que todo mundo acabava usando. Ela era um símbolo de resistência, de um tempo em que as coisas eram simples, mas complicadas ao mesmo tempo. E se você a vir por aí, rodando devagar, soltando fumaça e fazendo barulhos estranhos, dê uma onda. Margarida pode não ser a camionete dos sonhos, mas com certeza é a camionete das histórias que ninguém esquece.
E viva Margarida! Kua kua kua

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