O Rei das Fugas e o Pastor Desmiolado
Por Edmilson Vieira Dimelo
**Cidade de Nova Aurora, 1986.**
Naquela época, quando os radares ainda eram coisa de filme de espião e o máximo de tecnologia era um walkman com fita cassete, havia um sujeito chamado Dimelo — ou "Rei das Fugas", como ele mesmo se intitulava. Não que ele fosse bom em fugir, mas porque sempre dava um jeito de sumir depois de uma confusão. Dessa vez, porém, ele estava disposto a *causar* a confusão.
A história começou quando Álvaro, ex-amigo e atual "traidor do século", além de dever 500 contos (quantia suficiente para comprar uma Brasília usada na época), ainda roubou a namorada de Dimelo. Detalhe: ela se chamava Valquíria, mas era mais temperamental que uma galinha com ciúmes. Não bastasse a traição, Álvaro sumiu como um fantasma, deixando Dimelo com o ego esfarelado e o bolso vazio.
Mas o destino é caprichoso. Num sábado à noite, após três cervejas e um pastel de vento no Bar do Gustavo, Dimelo teve um *insight* divino: sequestrou o cachorro do seu amigo Pacheco, um vira-lata caramelo chamado Bala (porque, segundo Pacheco, "ele corre igual tiro"). O plano? Usar Bala, preso numa corrente grossa que parecia amarrar um navio, como arma psicológica.
**22h44, Rua Capitão Eleutério.**
Álvaro, agora "pastor Álvaro", descia a rua com um sorriso beatífico e um colega magricela de 1,90m que parecia ter escapado de um filme de zumbi. Dimelo, escondido na penumbra, deu o sinal:
— Bala, hoje você é meu anjo vingador!
O cachorro, interpretando "vingador" como "hora de brincar de morder calça", partiu para cima. Álvaro, vendo a fera caramelo e Dimelo surgindo como um demônio de bermuda, tentou recuar, mas tropeçou no próprio sermão.
— Você me deve 500 contos e uma explicação, seu João sem Vergonha! — rugiu Dimelo, enquanto Bala abocanhava a barra da calça do pastor.
O magricela, em pânico, fugiu morro abaixo, deixando para trás até o cheiro de álcool gel. A briga foi rápida: Dimelo desferiu 15 socos (ele contou) que deixaram Álvaro com dois olhos roxos, "igual à mulher do Nazareno", segundo testemunhas do bar.
**A Revelação (ou a Desculpa Espiritual):**
Álvaro, caído, gritou:
— Irmão, me converti! Jesus me salvou!
— Salvou nada! Você tá é com medo de pagar! — retrucou Dimelo, enquanto Bala rosnava para um inseto.
No final, Álvaro jurou que a dívida seria paga "em nome do Reino de Deus", mas Dimelo sabia: pastor que vira pastor após trair e dever dinheiro só está mesmo é fugindo do capeta.
**Epílogo: O Mocó da Fuga**
Após o tumulto, Dimelo e Bala descobriram um esconderijo secreto no fim da Rua General Osório: uma galeria subterrânea acessível por uma escadinha de dois metros, onde só cabiam magros e desesperados. Lá, ele e amigos "selecionados" (como Elias, o maluco de Planaltina) passaram a se reunir para tomar cerveja quente e planejar próximas fugas — ou próximas vinganças.
**Moral da História:**
Nunca subestime um homem de bermuda, um cachorro caramelo e uma dívida não paga. Principalmente se o universo resolver ajudar com um soco bem dado na hora certa.
*(Fim... ou quase: dizem que Álvaro hoje dirige uma clínica de recuperação e vive tentando converter Bala. Sem sucesso.)*

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